O QuatroTantos desta quinta-feira é um tanto existencial e bizarro, como o próprio autor diz. Em 2002, ele já dava as caras em entrevista para Jô Soares. Nos anos seguintes, lançava Olívio, A Morte sem nome, Feriado de mim mesmo, Mastigando humanos, Pornofantasma e por aí vai. Seu último livro, lançado em 2023 pela Companhia das Letras, pode ser um bom caminho para conhecer a estética e as estruturas ficcionais propostas pelo autor, já que a obra, causa intencionalmente espanto, é construída em formato de entrevista, onde um adolescente não binário depõe a um interlocutor que nunca diz seu nome. Assim, a narrativa destrincha uma série de perguntas e respostas não lineares, revisitando a infância, a sexualidade, o ódio, ressentimentos, solidão e, claro, muito mundo digital envolvido, isto é, as redes sociais atuais. Tudo isso em duas vozes completamente diferentes, antagônicas, contraditórias, possíveis de perceber certa espetacularização da midiatização da internet no mundo contemporâneo. Na trama, bandido e ladrão são quase sósias.
Santiago Nazarian faz o sétimo QuatroTantos, que já recebeu Flávia Santos, Cris Judar, Amara Moira, João Silvério Trevisan e Flávia Braz. E fala sobre o seu primeiro livro, extremismos, a sua criação literária, a cena atual e um pouco dos seus livros inspiradores. Alastre por quatro cantos.
Seu primeiro livro, Olívio, foi lançado em 2003. Já o seu último, Veado assassino, em 2023, vinte anos depois. De lá para cá o que mudou na cena literária do país?
Mudou tanto… que poderia ter dado a volta completa e voltado para onde comecei, mas acho que ainda não… Eu publiquei com bastante regularidade nesses 20 anos, no máximo com dois ou três anos de espaçamento entre cada livro. E a cada publicação eu encontro um cenário diferente, formas diferentes de divulgar o livro. Poderia se pensar que um meio como o literário não seria tão sujeito a modismos e tendências, mas o mercado literário é um mercado como todos os outros, preocupado em vender. De todas as mudanças, a que mais me preocupa atualmente é o moralismo e a censura mercadológica a que os livros são sujeitos, a começar dentro das editoras.
“Poderia se pensar que um meio como o literário não seria tão sujeito a modismos e tendências, mas o mercado literário é um mercado como todos os outros, preocupado em vender.” —Santiago Nazarian
Em Veado assassino um presidente de extrema-direita é morto por um adolescente não binário. Como foi esse processo de criação?
Foi um livro escrito muito rapidamente, em vinte dias, no início de 2022. Na época, já se tinha a impressão de que Bolsonaro era página virada, de que Lula ganharia no primeiro turno, então o livro foi escrito muito com essa mentalidade: Ding Dong, the witch is dead – e o que fica? Qual é a responsabilidade da esquerda nisso? Que erros podemos evitar e que país melhor podemos fazer daqui pra frente? É muito também um retrato de uma geração Z não-binária, pronta para o cancelamento, que sabe o que atacar, mas não o que defender. Na época eu estava namorando um menino bem mais novo, que começou a passar pela transição de gênero, era todo o contexto em que eu vivia… Escrevi muito rápido e mandei pra Companhia, que já tinha publicado dois livros meus; era importante que saísse por uma editora grande, com tradição literária, senão seria visto muito como fanfic de esquerda. Foi uma negociação complicada, passou pelo jurídico para evitar processos, também tinham medo da militância de esquerda… A literatura está num momento muito panfletário, de levantar bandeiras, e o sarcasmo e o cinismo, que são marcas registradas minhas, não são vistos com os melhores olhos… Acho que o livro sofreu muito com isso. Mas enfim, uma hora a gente dá a volta completa…
“A literatura está num momento muito panfletário, de levantar bandeiras, e o sarcasmo e o cinismo, que são marcas registradas minhas, não são vistos com os melhores olhos… Acho que o livro sofreu muito com isso. Mas enfim, uma hora a gente dá a volta completa…” —Santiago Nazarian
As estruturas narrativas tecidas em sua produção literária são ainda imagéticas, sonoras e, muitas vezes, cinematográficas. Qual filme você gostaria de ter escrito e qual livro adaptaria para o cinema?
Eu tenho uma ideia bem antiga, que nunca consegui desenvolver muito bem, que era de festas em que se usava possessão demoníaca como uma droga psicodélica. Daí há poucos anos saiu “Fale Comigo”, que é basicamente essa premissa. Dos meus livros, acho que o que daria o melhor filme seria “Neve Negra”, e está com a RT Features há uns bons anos… Já “Fé no Inferno” daria um ótimo videogame…
“Dos meus livros, acho que o que daria o melhor filme seria “Neve Negra”, e está com a RT Features há uns bons anos… Já “Fé no Inferno” daria um ótimo videogame…” —Santiago Nazarian
Quais livros Santiago Nazarian relê e em quais momentos?
Hum… resposta meio sem graça, mas vira e mexe volto aos meus clássicos favoritos, Crime e Castigo, Dorian Gray, A Metamorfose, Morte em Veneza… Eu leio muita literatura brasileira contemporânea, como leitor crítico, jurado de prêmios e os lançamentos dos amigos, então vira e mexe volto a essas bases universais para lembrar que há neve lá fora…
“Hum… resposta meio sem graça, mas vira e mexe volto aos meus clássicos favoritos, Crime e Castigo, Dorian Gray, A Metamorfose, Morte em Veneza…” —Santiago Nazarian
Santiago Nazarian (São Paulo, 1977) é autor de treze livros publicados pelas maiores editoras do país, entre eles Fé no Inferno (Companhia das Letras, 2020), Biofobia (Editora Record, 2014) e Mastigando Humanos (Nova Fronteira, 2006, Record 2013). Descreve seu projeto literário como “existencialismo bizarro”, no qual mescla questões atemporais da literatura existencialista com cultura pop, sarcasmo e horror. Em 2003 ganhou o Prêmio Fundação Conrado Wessel de Literatura com seu romance de estreia. Em 2007, foi eleito um dos escritores jovens mais importantes da América Latina pelo júri do Hay Festival em Bogotá, Capital Mundial do Livro. Em 2021 foi finalista dos prêmios Jabuti e Oceanos e recebeu o segundo lugar no Machado de Assis, da Biblioteca Nacional. Além de escritor, é tradutor, roteirista e colabora em diversos periódicos.
Alessandro Araujo é colaborador dos jornais Rascunho, Le Monde Diplomatique Brasil e da revista Philos. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.